Tudo nos remete à ideia de sentido. Se fazemos uma coisa e não outra, fazemos geralmente por querer subordinar nossas ações a uma lógica, e assim vivemos, definindo nossas vidas com base em conceitos que traduzimos como “certo” e “errado”, “bem” ou “mal”.
Ensinamos nossas crianças a não roubar, a não furtar, a
entender que matar alguém é errado e que a justiça (ainda que falha) deve ser o
único meio pelo qual podemos, enquanto sociedade, condenar alguém pela ação ou
omissão em determinados casos. Ensinamos a respeito dos valores morais, pois
sabemos, na maioria das vezes por intuição, que não somos capazes de sobreviver
enquanto espécie e componentes de um meio democrático sem reguladores implícitos
ou explícitos que visem regular nossas atitudes frente ao caos que reside fora
das instituições, estas mesmas que nos trazem tanta dor de cabeça, mas que
ainda assim cabe a nós lutarmos para a melhoria contínua do aparato legal, da
descentralização dos poderes e da separabilidade para com a confusão
revolucionária que alguns tentam, aos poucos, implantar no coração do ocidente.
Contudo, ao falarmos de valores morais, remetemos
necessariamente a ideia de Deus, afinal, apenas a existência de algo
supra-humano poderia nos fornecer a concretude de algo objetivo. Então, para o
pensador sério, fica a pergunta fundamental que pode necessariamente delinear
todas as outras: Deus existe ou não existe? E se não existe (coisa impossível
de provar), deveríamos pregar isso aos quatro ventos? A questão trazida aqui não
é necessariamente teológica e nem mesmo tem a ver com a busca pela verdade
(coisa raramente achada), mas, ao invés, proponho uma breve reflexão.
Se não existe Deus, o que mais não existiria? Penso, sem rodeios,
que não existiria valor moral objetivo, pois não haveria base que o sustentasse
como tal. O que poderia existir segundo essa ótica ateísta seriam valores
subjetivos, construções sociais que através de uma psicologia evolutiva se
frutificou de uma mente para a outra, de uma geração para a outra, apenas para
manter certa preservação biológica. Então, pergunto, neste mundo sem valor
objetivo, carente de sentido último, tudo seria realmente construção social?
Tudo, menos uma coisa... A força, o poder. O poder, não importando os meios
para exercê-lo, se mantém objetivo sobre todos, pois só ele exerce seu efeito
de maneira indiscriminatória, não importando cultura ou raça. Em um mundo
subjetivo, a força seria a única coisa objetiva. Logo, aqueles que exercem a
força ao extremo seriam os únicos homens virtuosos, os únicos a viverem da
única verdade. Os ditadores e predadores de todos os tipos seriam exemplos a
ser seguidos, dignos de exemplo para os demais.
Veja, o poder possui os meios de se consolidar (política,
crime, sexo, ideologias...), mas esses meios não podem ser entendidos como o
poder em si. Os meios mudam, quanto a isso não há dúvida, mas o efeito do poder
se mantém e se mostra sempre o mesmo sobre as pessoas. E o que é o poder? A
possibilidade de impor ideias, pensamentos, de fazer com que o outro passe a
integrar um projeto pretendido por você.
Em um mundo sem Deus, como diria Dostoievsky, tudo passa a
ser permitido. Embora tal afirmação possa parecer simplória, só o é a primeira
vista, pois, de fato, a falta de objetividade quanto à moral só pode ser
entendida como a negação imediata desta. Mas sendo o poder algo concreto sobre
a vida das pessoas, o que teria o direito objetivo de freá-lo senão um poder ainda
maior? Um ciclo vicioso se implantaria. O altruísmo nada mais seria do que uma
falha diante da impossibilidade de convivência com a ideia do poder crescente.
Um diminuiria o outro.
A ideia da inexistência de Deus remeteria a humanidade a um
estado animalesco. A falta do divino no coração das pessoas implicaria na falta
do maior fator regulativo da humanidade.
O que dizer então do holocausto judeu? Da crueldade dos
gulags? Da matança indiscriminada dos tutsis pelo hutus? Do homem em um beco
escuro que estupra uma mulher inocente? Com a inexistência de Deus, sob qual
argumento valorativo poderíamos condenar tais atrocidades? Alguns poderiam
responder apelando ao sofrimento, pois o sofrimento seria argumento suficiente
para se ter o causador do mesmo como maligno. No entanto, o sofrimento nada
mais é que poder passivo, um tipo de poder de pouco valor, afinal, o poder
ativo (a força) é superior por natureza, visto que esta recebeu de maneira
natural sua capacidade de se elevar, de se impor.
A verdade é que a inexistência de algo supra-humano corroboraria com o
fervor cruel de certos corações. Todo o poder ativo seria o único passível de
ser juiz e todos que não o tivesse só restariam implorar, não à moral, pois
essa não existiria objetivamente, mas ao poder, submetendo-se ao mesmo. Com a
crescente tecnicidade das leis e do pensamento individual, com a
instrumentalização da arte, com o positivismo circulante nas veias das
instituições, penso se esse não seria o destino final da humanidade...
Não deixem que ninguém os engane de modo algum. Antes daquele dia virá
a apostasia e, então, será revelado o homem do pecado, o filho da perdição.
Este se opõe e se exalta acima de tudo o que se chama Deus ou é objeto de
adoração, chegando até a assentar-se no santuário de Deus, proclamando que ele
mesmo é Deus.
2 Tessalonicenses
2:3-4
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